sábado, 2 de abril de 2011

— Eu... disse ela mas silenciou: emocionara-se demais para poder falar.

Sim? encorajou-a Ulisses, inclinando-se para a frente porque sentira que ela diria alguma coisa importante.
Então, como lançando-se sem pensar num abismo, Lóri disse:
Um dia eu fui de madrugada ao mar sozinha, não tinha ninguém na praia, eu entrei na água, só tinha um cachorro preto mas longe de mim!
Ele olhou-a com atenção, a princípio como se não entendesse que significado invulgar poderia haver naquela declaração emocionada. Afinal como se tivesse compreendido, perguntou devagar:
Gostou?
Gostei, respondeu com humildade, e de vergonha seus olhos se encheram de lágrimas que não caíam, só faziam com que parecessem duas poças plenas. Não, corrigiu-se depois, procurando o termo exato, não é que tenha gostado. É outra coisa.
Melhor ou pior que gostar?
Foi tão diferente que não posso comparar. Ele examinou-a um instante:
Sei, disse depois.
E acrescentou simples:
Eu te amo.
Ela olhou-o com olhos obscurecidos mas seus lábios estremeceram. Ficaram em silêncio por um momento.
Teus olhos, disse ele mudando inteiramente de tom, são confusos mas tua boca tem a paixão que existe em você e de que você tem medo. Teu rosto, Lóri, tem um mistério de esfinge: decifra-me ou te devoro.
Clarice Lispector